Feridas na visibilidade

Por Benedito Silva.

No começo do mês aconteceu o VI Congresso Brasileiro de Prevenção e Tratamento de Feridas, trazendo o tema Feridas na Invisibilidade. Com importante repercussão no cenário nacional a sexta edição do congresso reuniu centenas de profissionais da saúde em torno das práticas que cercam os cuidados de saúde com lesões, seu manejo e as tecnologias atualmente disponíveis e aquelas que se avizinham como alternativas aos tratamentos.

Tão importante quanto as discussões em si a respeito das diferentes abordagens que cercam os cuidados com lesões, a exemplo das competências do profissional, a definição das tecnologias apropriadas, o manejo e tratamento de condições complexas e a introdução, cada vez mais rápida, de insumos capazes de responder diferentes necessidades, o congresso coloca a especialidade feridas no centro das atenções da saúde pública e suplementar, doença de importante repercussão à medida que acomete milhares de pessoas, consome recursos de grande monta de pacientes e pagadores e pode levar o doente a óbito.

O conceito amplo de tratamento de feridas vem ocupando cada vez mais espaço nas discussões das equipes de saúde e principalmente das operadoras de planos, no que diz respeito à necessidade de oferecer um nível de atenção com foco na lesão e nas comorbidades do doente que ocasionam a ferida e muitas vezes a estaciona em determinado estágio, além do que nas ações preventivas e ao fato de que os custos do tratamento, com a introdução de muitas tecnologias, estão em uma ascendente.

Tratar feridas não é realizar curativo. Este último é uma ação dentro do processo de tratamento de feridas e em geral uma das últimas entregas desse processo e da conduta em si. O que se tem observado e que está em processo de mudança é exatamente essa distinção entre a especialidade feridas, a complexidade de se estabelecer um conjunto de condutas assertivas aos cuidados de uma lesão complexa, e o simples ato de uma troca de curativos.

É uma discussão que não se esgota com o encerramento do congresso. Este é o ponto de partida para que entendamos a necessidade da repercussão do tema de maneira ampla e principalmente à parte mais interessada, o paciente. São poucos os doentes que conhecem e buscam profissionais especializados em tratamento de feridas. Os pacientes, em especial aqueles da saúde suplementar, ainda estão soltos em um sistema compartimentado, em geral entendem como porta de entrada para suas lesões o ambulatório de um hospital, especialidades médicas da Dermatologia e da Cirurgia Vascular, uma indicação de um familiar, mas desconhecem que o tratamento de feridas é uma especialidade da enfermagem e que essa se incumbe de interagir com outras áreas da saúde para definir o tratamento apropriado.

Tratar feridas é uma especialidade interdisciplinar que tem como personagem central a enfermagem, interagindo com diferentes profissionais da saúde a fim de estabelecer o conjunto de cuidados mais apropriado ao doente. Nesse sentido pode e deve interagir, quando necessário, com médico, fisioterapeuta, nutricionista, fonoaudiólogo, com colegas, entre outros.

Aos poucos o mercado tem apresentado iniciativas e unidades apropriadas aos cuidados de feridas que revelam a repercussão que o tema tem para a saúde e para a gestão dos custos. A conhecida frase “tratar feridas é um procedimento caro” está repleta de vieses, pois o que torna um tratamento caro é a falta de conhecimento (que inclusive coloca em risco o doente) e a utilização de estruturas de alto custo, que acabam por encarecer o serviço.

Em novembro de 2018 acontece a próxima edição do congresso e até lá há muita coisa para se construir.

 

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