O Cuidado Domiciliar

Histórico

Muitos registros na área da saúde demonstram, historicamente, a inserção do cuidado domiciliar como sendo uma prática antiga e acreditada por vários estudiosos que, com o passar dos anos, tornou-se uma modalidade de atendimento organizada implementada em vários países.

No século XIII a.C no Egito Antigo, um médico chamado Imhotep atendia os pacientes no domicílio e em seu consultório e também era responsável pelo atendimento no palácio ao Faraó. Desde esta época, as primeiras referências da medicina apontam para um cuidado domiciliar.

Na Grécia Antiga, o médico Asklépios atendia no domicílio dos pacientes e seus denominados seguidores atendiam os indivíduos nos templos. Nesses locais havia medicamentos e materiais para proporcionar o tratamento e a cura aos indivíduos enfermos – alguns registros apontam que estas estruturas são consideradas futuramente como hospitais.

Hipócrates, no século V a.C., descreveu a importância e a eficiência do cuidado no domicílio. Segundo ele essa forma de atendimento trazia êxito ao tratamento dos enfermos, como expõe no “Tratado sobre os ares, as águas e os lugares”.

Samuel Hanneman, fundador da Homeopatia, no final do século XVII visitava os doentes no domicílio por acreditar que o médico era responsável pelo tratamento e cura das enfermidades, fazendo questão de permanecer junto ao leito dos doentes no domicílio a maior parte do tempo possível.

Antes do surgimento dos grandes hospitais e da modalidade de assistência ambulatorial, no final do século XVIII, na Europa, os cuidados de enfermagem já eram largamente empregados. Especificamente no campo de enfermagem, Florence Nigthingale, ao se referir à saúde como estilo de vida, afirmou, em 1963, que os doentes se recuperariam melhor em suas casas do que nas instituições hospitalares.

Independente do contexto vivenciado por Florence, do viés histórico – ideológico que permearam sua atuação, bem como as diferenças entre o ecossistema do século XIX e o do tempo atual, o que se advoga no campo da saúde domiciliar já era preconizado, quando esta enfermeira deu inicio à revolução científica na enfermagem mundial.

Cuidado Domiciliar no Brasil

Segundo o professor Barreira (1992) a prestação de cuidados domiciliares no Brasil no início do século foi valorizada e tida como atividade prioritária no combate às grandes endemias que assolaram os grandes centros. Este cuidado era feito por intermédio de visitas domiciliares.

A partir deste fato foi reconhecida a necessidade de formação de profissionais para este exercício. Conforme o professor Oliveira (1996) esta formação estava direcionada à prestação do cuidado para o doente ou para os fatores de risco de determinados agravos e não para a família como grupo social.

Com a institucionalização do Sistema Único de Saúde – SUS, a partir da Lei Federal nº 8080/90 (BRASIL, 1990), algumas estratégias foram pensadas e implementadas para a consolidação do seu modelo. Uma delas foi a proposta do Ministério da Saúde, em 1994: O Programa de Saúde da Família – PSF (Fundação Nacional de Saúde, 1996).

Saúde da Família

O PSF, na forma com que foi concebido, surge como resposta às propostas de atenção primária de saúde que ocorreram na década de setenta e ao movimento da Reforma Sanitária, que ocorreu na década de oitenta, culminando com a implantação do SUS.

Neste cenário, a construção de um novo modelo assistencial embasado em estratégias do PSF propõe a organização das práticas de saúde voltadas para atenção a família. Um dos pressupostos das estratégias do PSF elege a família e seu espaço social como foco da atenção à saúde (Ministério da Saúde, 1996).

Segundo o professor Elsen (1994) a família constitui uma unidade de saúde para seus componentes, apesar dos estudos que abordam as funções da família não incluírem de forma explícita o cuidado com a saúde de seus membros. Entretanto, a autora destaca que esta unidade nem sempre é eficiente no desempenho deste papel e apenas é considerada saudável quando cuida da saúde de seus componentes de forma adequada.

Assim, o domicílio é considerado o cenário onde ocorrem as relações sociais geradoras de conflitos e de outros fatores de risco de adoecer, sendo também o local privilegiado para o desenvolvimento de ações e da atuação na busca pela promoção e manutenção da saúde.

O cuidado dispensado à saúde no domicílio propicia a inserção dos profissionais no cotidiano do paciente; identificando demandas e potencialidades da família, em um clima de parceria terapêutica. Para isso concorrem fatores como a humanização do cuidado, a ausência de riscos iatrogênicos de origem hospitalar, o resgate das formas de cuidar calcadas nas práticas tradicionalmente usadas pela população, embasadas na bagagem cultural.

O desenvolvimento das ações propostas pelo PSF está relacionado prioritariamente à prevenção primária, ou seja, aquela prevenção realizada antes mesmo que a doença ocorra no paciente, não excluindo também a atuação na prevenção secundaria e terciária, tratamento e reabilitação respectivamente.

No caso do atendimento domiciliar realizado pelos serviços de Home Care, na maioria das vezes há mais ações voltadas para a atenção secundária e terciária, que consistem no tratamento do agravo, até mesmo internações domiciliares e acompanhamento na reabilitação do paciente.

É importante também identificar que o PSF é um programa de política pública de atendimento à população pelo Sistema Único de Saúde, enquanto o Home Care é uma empresa constituída que obedece a normas regidas pelo sistema nacional, mas que atende na maioria das vezes pacientes particulares ou com planos de saúde, tendo também possibilidade de atender ao SUS, constituindo um serviço terceirizado.

Atendimento Domiciliar

Atendimento domiciliar conceitua-se como o conjunto de procedimentos hospitalares passíveis de serem realizados no ambiente domiciliar do paciente, englobando ações de saúde de equipe multiprofissional, baseadas em diagnóstico da realidade que o paciente vive, buscando a promoção, manutenção e reabilitação da saúde (Fabrício et al, 2004).

A atenção ao atendimento domiciliar, segundo os professores Moura e Nakamura (2003), inclui procedimentos simples de enfermagem, internações domiciliares e até mesmo assistência no domicílio daqueles pacientes considerados pelos médicos como fora das possibilidades terapêuticas. Um paciente considerado fora das possibilidades terapêuticas, ou também denominado paciente terminal, é aquele onde as possibilidades de cura não existem, o tratamento passa a ser paliativo e o prognóstico é o óbito. Este diagnóstico é feito pelo médico depois de esgotados os recursos de cura para determinada doença.

Collopy et al, citado pelo professor Mendes (2001), descreve que na modalidade de assistência domiciliar estão envolvidos procedimentos como cuidados dos clientes em suas atividades cotidianas, administração de medicamentos, realização de curativos, cuidados com estomas e até mesmo o uso de alta tecnologia hospitalar com a presença de equipe multiprofissional de permanência 24 horas/dia.

Equipe Multiprofissional

A equipe multiprofissional que compõe um cuidado domiciliar formal deve ser composta por médico, enfermeiro, técnico de enfermagem, nutricionista e fisioterapeuta. Conforme a complexidade do atendimento ao paciente, sua patologia e prognóstico, os profissionais em conjunto devem estipular as condutas de tratamento a serem seguidas e a possível necessidade de outro profissional.

O trabalho em equipe multiprofissional consiste numa modalidade de trabalho coletivo que se configura como uma relação recíproca entre as múltiplas intervenções técnicas e a interação dos agentes de diferentes áreas profissionais. Por meio da comunicação, ou seja, da mediação simbólica da linguagem, dá-se a articulação das ações multiprofissionais e a cooperação (PEDUZZI, 1998).