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Homecare movimenta operações no setor de saúde, mas está longe de encabeçar consolidação

Lexis 360 (por Paula Dume).

Transações envolvendo hospitais de transição e de atendimento primário também são verificadas.

A área de homecare tem despertado o interesse de investidores estratégicos estrangeiros e financeiros nacionais. O setor cresce no Brasil com uma boa margem, segundo advogados consultados pelo Lexis 360, mas há uma necessidade de aumento na oferta.

Elysangela Rabelo e Marco Aurélio Torronteguy, sócios da área de life sciences do TozziniFreire Advogados, estão envolvidos em uma operação de homecare com um investidor estrangeiro estratégico que já atua na área. Além deste, há pelo menos mais dois projetos separados sendo conduzidos em diferentes regiões do país. A Cypress, boutique de M&A, está à frente de um deles. Procurada, preferiu não dar detalhes sobre a operação.

A sócia do TozziniFreire afirma que, embora o setor esteja movimentado, ainda há muita operação para acontecer para, de fato, se verificar uma consolidação no país. “Há uma necessidade das operadoras de planos de saúde para reduzir custos dentro dos hospitais”, comenta Elysangela.

Essa redução de custos pode se dar de diversas formas. Uma delas é via homecare. A outra, via hospitais de transição, que são uma alternativa para pacientes em quadro estável e que necessitam de um cuidado extensivo para sua recuperação ou adaptação a sequelas decorrentes de processos clínico, cirúrgico ou traumatológico. Para André Luiz Villas Bôas e Silva, diretor da Federação Brasileira de Administradores Hospitalares (FBAH), o homecare, “como existe hoje”, contém mais riscos. “Esse tipo de atendimento tinha sucesso enquanto não havia hospitais de transição no país”, disse.

Nos últimos anos, alguns negócios na área de saúde foram nessas duas direções. Em 2015, a italiana Vivisol, uma das gigantes europeias em homecare, comprou, por meio de sua subsidiária Arisol, uma fatia de 60% da Inspirar, empresa brasileira de equipamentos médicos. Os valores da operação não foram divulgados à época.

Um ano antes, um grupo de investidores —formado por um executivo da gestora de fortunas GPS e ex-funcionários da rede Fleury e do fundo de investimento Carlyle— fez um aporte na Dal Ben e assumiu o controle da empresa especializada em homecare. O grupo formou um conselho de administração com membros de diversas indústrias para adotar práticas de governança modernas para a gestão da companhia e definir as diretrizes para o crescimento e o desenvolvimento das operações. E conseguiu.

Segundo Alexandre Castelhano Tassinari, diretor executivo da Dalben, a empresa tem atualmente um hospital de transição, a Althea, localizado no Jardim Anália Franco, na zona leste de São Paulo, e pretende lançar novos hospitais nos próximos anos. A Dal Ben foi fundada em 1992 pela enfermeira Luiza Dal Ben para criar um serviço de assistência domiciliar no país e levar à casa dos pacientes a qualidade da assistência médica dos grandes centros hospitalares.

 

Mercado em crescimento
Com o aumento da expectativa de vida no país nos últimos anos (72,2 para homens e 79,4 para mulheres), o alto índice de hospitalização e a falta de leitos tornaram-se problemas na área de assistência à saúde. No Brasil, a procura pelo atendimento domiciliar, para propiciar uma recuperação mais rápida do paciente, com menor risco de complicações clínicas, cresceu. De acordo com um boletim econômico da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (Fehoesp), o Brasil tinha 138 clínicas de homecare em 2011. No ano passado, já eram 392.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – Características dos Moradores e Domicílios, divulgada em abril deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira ganhou 4,8 milhões de idosos desde 2012 (são 16,9 milhões mulheres e 13,3 milhões homens).

Segundo Eduardo Paoliello, sócio da área de M&A do Pinheiro Neto Advogados, de um lado, há os consumidores querendo ter todo tipo de serviço e, do outro, planos de saúde desejando manter sua rentabilidade, seja aumentando o preço ou tentando diminuir a sazonalidade das internações.

“Para determinados tipos de pacientes, o homecare é uma alternativa que deve ser mais barata do que ficar internado em um hospital tradicional ou em um de retaguarda. É natural que a atenção [dos investidores] se volte para esse tipo de serviço”, disse.

O advogado acredita que o atendimento domiciliar faz mais sentido dentro de um plano verticalizado do que de forma independente. Atualmente, a maioria das operações de fusões e aquisições no setor de saúde acontece em estruturas verticalizadas, nas quais as operadoras têm seus hospitais e adquirem operações menores para agregar serviços especializados para seus pacientes e segurados. O homecare se encaixa nesse modelo ao oferecer um atendimento com custo diferenciado.

 

Remédio tecnológico
Operações envolvendo hospitais de retaguarda e de atendimento primário também têm atraído o olhar dos investidores. A preocupação com a redução de custos e de propiciar para o paciente uma experiência melhor, com um atendimento mais adequado, menos custoso e, às vezes, até mais efetivo tem motivado esses investidores.

Elysangela estima que, para os próximos dois anos, a tendência é que as operações menores sejam cada vez mais frequentes no setor de saúde, principalmente envolvendo clínicas especializadas.

De acordo com a advogada, quanto mais inovação houver para melhoria da gestão e experiência do paciente, mais interesse nesse tipo de produto o mercado terá.


 

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