Psicologia e fé são reconciliáveis?

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Psicologia e fé são reconciliáveis?

Por: Diviol Rufino, para a revista Cidade Nova, ed. 568

Gostaria de relatar uma consulta, com a autorização do meu paciente. Recentemente um jovem me apresentou o seu conflito interno: a pressão e a intolerância que sofre por parte da sociedade circundante – colegas, mídia, professores – quanto às experiências religiosas que ele faz e que sente como autênticas e verdadeiras. É nesses valores que se apoiam as suas escolhas, as suas atitudes no cotidiano, o seu engajamento na sociedade. Para tratarmos o mais amplamente possível do assunto, foi necessário fazer aquilo que chamamos de “corte hermenêutico”: a questão foi enfocada não apenas pelo lado psicológico, mas de forma interdisciplinar.

A fé autêntica, fundamentada na experiência religiosa e espiritual, nunca pode nem deve ter a pretensão de substituir a ciência. Contudo, nem por isso pode deixar de iluminar em profundidade tudo o que pertence à vida do ser humano, inclusive a ciência. Se não o fizer, não estará cumprindo o seu papel de pensar no homem em sua totalidade.

Como diria o filósofo Anselmo de Cantuária, que viveu por volta do ano 1030, fides quaerens intellectum: “A fé [está] em busca da inteligência”. É dele ainda a afirmação: “A essência suprema existe em todas as coisas e tudo depende dela”. Ele reconhece na fé a “onipotência, onipresença, máxima sabedoria e bondade suprema. Ela criou tudo a partir do nada”. E ainda, segundo ele, “grandes coisas esperam por aquele que aceitar Deus e buscá-lo”.

Por outro lado, o legítimo cientista – inclusive o que se dedica às ciências humanas, como o psicólogo, por exemplo – não estará traindo as “verdades científicas”, se é que estas existem de forma absoluta, se ele se convencer que também intelectus quaerens fides. Ou seja, que a ciência verdadeira é aquela que vai em busca da fé.

Outro filósofo influente, Hugues de Saint-Victor (1096-1141), que nasceu na Saxônia, no Sacro Império Romano-Germânico, e foi um importante professor da escola da abadia de São Vitor, em Paris, definiu de maneira bastante concisa a experiência filosófica de Anselmo, com a seguinte expressão: “Deus relacionou-se de modo tão intimamente intrincado com o ser humano que o homem não pode entender Deus. Mas também não o pode ignorar”.

Agostinho de Hipona já havia atestado: “A fé precede, o intelecto segue”. E justamente por isto ele declarava, convicto: Credo ut intelligam (“creio para entender”).

Pode surgir o seguinte questionamento: que importância esses homens têm para a psicologia de hoje? Eles ainda exercem influência simplesmente porque são pensadores que deixaram um legado cultural incomensurável para a formação do pensamento ocidental e de muitos povos também no Oriente. Suas ideias nortearam o modo de agir e de construir a vida em sociedade, inclusive a nossa. O prestígio desses pensadores provém também de uma rica experiência em lidar com a humanidade, de seus aconselhamentos de natureza psicológica e de uma produção teórica de excelência.

Na minha experiência profissional, toda vez que pretendi suplantar a vivência religiosa com argumentos puramente científicos, percebi que o intelecto tem pernas curtas e que a minha compreensão do ser humano ficava incompleta sem o suporte sapiencial que a experiência religiosa oferece.

Contato: Diviol Rufino (psicologia@cidadenova.org.br)

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